Aula 02
AULA 2 – Ver não é observar.
Oioi, turma de Poetisas e
Poetas Criativos,
“Conhece-te a ti mesmo e
conhecerás o universo e os deuses”. eis o que estava inscrito no pórtico do
Oráculo de Delfos, na Grécia Clássica, quando os poetas eram chamados de vates,
por serem considerados como tendo o dom dos vaticínios (das profecias), na
época em que poesia e drama rugia eram inseparáveis. Esta frase tem tudo a ver,
portanto, para começarmos este segundo módulo:
Ouve-se muito dizer que a
criatividade na poesia surge através da observação do mundo, das pessoas que
estão ao nosso redor. Porém em geral vemos, sem
observar, e, principalmente, sem
pensar que tudo o que vemos reflete ideias, damos a tudo o que vemos
o significado que elas têm para nós; então, para captar ideias criativas do
mundo ao redor é necessário começarmos a observar melhor o que vemos e a
contemplar o que sentimos por trás do nosso olhar. Em se tratando de
criatividade na poesia, passe a anotar as ideias a sensação que elas lhe passam
(anote sempre que possível, porque ideias são voláteis e fugáveis: voam rápido).
Pode ser uma cena, uma frase ou uma palavra lhe chama a atenção: que árvore
linda, Linda por quê? É copada. É frondosa. Parece que nos acolhe. Um abraço de
árvore é o contrário de um abraço de urso...
A partir daí você tem um caminho cheio de trilhas na sua frente para
você escolher. Hoje, por exemplo, eu vi
um cachorro ao lado de um gato bebendo água na mesma vasilha e pensei na frase
popular: “Eles brigam como cão e gato”. Tive vontade logo em fazer um poema
mostrando que há cães e gatos amigos, que repartem a bacia de água. E senti que
este poema seria sobre solidariedade. Anotei em meu quinto caderno de ideias,
porque não tenho tempo para criar esta poesia agora; mas sinto que meu cérebro
já está trabalhando nela, a gestação já está em andamento.
Se o poema já começou a
se concretizar, não precisa ficar pronto imediatamente. Coloque o que vier à
mente, mais tarde você burila. Nada de ansiedade ou afoiteza. Oense, repense,
faça associações, curta o processo de criação, não finalize de qualquer modo, porque
é no fechamento que você arranca aplausos ou vaias. O poema, igual a uma novela
de televisão, pode até ter um final em aberto para que o leitor exerça seu
direito de gostar ou não; porém não delegue a ele a responsabilidade de
adivinhar ou não saber o que você quer dizer ao certo. Clareza é um dos
elementos principais na poesia. Ela pode ser ambígua (faz parte da sua
linguagem conotativa), mas não indecifrável ou ininteligível.
Vamos falar de alguns
chavões: É comum ouvir-se: que para se escrever bem é preciso ler muito. Porém
não é a quantidade de livros, ou revistas, ou jornais, que propicia um
repertório maior ao escritor. É a forma com que ele lê; No belíssimo livro de
Maryanne Wolf, no seu belíssimo livro, O cérebro no mundo digital, a neurocientista
mostra como a qualidade da leitura é a base da qualidade do nosso pensamento e
até do modo sequencial O que ela chama
de leitura profunda (atenta, reflexiva) influi na compreensão das questões mais
complexas de nossas vidas, na facilidade de coerência sequencial e na
capacidade de nossa memória. Ela propõe que sejamos “biletrados”: não
dispensemos informações e textos curtos da Web, mas não abandonemos a leitura
profunda dos textos longos, que têm repercussão até mesmo na decisão de nossos
problemas mais triviais.
A questão não deve ser o
tamanho do texto, porém a capacidade de entender o que lemos e de dialogar com essas
leituras. Só assim, segundo Maryanne, estaremos imunizados contra manipulações,
sabendo analisar notícias e informações falsas das verdadeiras. Um dístico de 2
versos ou uma trova (de 3 versos) podem ser tão marcantes e importantes, quanto
uma tese inovadora de 100 páginas.
Leia com atenção, e não se deixe levar pelo
tamanho do poema, há muito preconceito com poemas minimalistas, como a trova
(que muitos chamam pejorativamente de quadrinhas...); Não tenha preguiça com os
textos longos, nem menospreze os poetrixes e as aldravias, tão difíceis de
serem feitos, porque precisam sintetizar uma “cena inteira” ou um sentimento
complexo em poucas palavras.
No
mundo do MINIMALISMO POÉTICO. quero me deter mais no haicai, que é
uma modalidade de poesia de origem japonesa, sem título, com um formato rígido
de três versos, com a métrica de 5 / 7 / 5 sílabas (contagem de sílabas
poéticas, até a sílaba tônica) e com kigos (tema sazonal ou palavra da estação,
inclusive datass de celebração). Não tentem chamar de haicai um poema fora
desta padrão: se essas regras não forem observadas, o poeta passa a impressão de
incompetência, ou de ignorância das regras.. Haicai sem a métrica convencionada
não é haicai, é terceto; com quatro versos, é quadra ou trova; soneto de 6
versos, não é soneto, é sextilha... Ou seja: se você escolhe um formato “fechado”,
fixo, mostre que é especialista neste jogo de armar e que sabe perfeitamente o
que está fazendo. Alcançar a síntese dentro de um poema com métrica e rima, por
exemplo, sem parecer que esses elementos foram forçados, espremendo a ideia, é
meta que exige treino, sensibilidade e
exercício.
Detenho-me um pouco mais sobre os haicais, pois de todos os formatos minimalistas, a construção dele é a mais complicada para nós: ainda segundo Barthes, só com extrema dificuldade nos libertamos da lógica formal ocidental tão fortemente enraizada em nós. Para o filósofo francês, avesso aos estereótipos contidos na prática discursiva, o haicai é uma raríssima exceção, por ser “um lugar feliz em que a linguagem descansa do sentido”, a salvo das manipulações do discurso do poder; ainda segundo ele, o haicai aponta para o repouso e a desconversa, em oposição ao movimento de pseudo diálogo que camufla articulações e intenções por trás da fala. O haicai perfeito não tem costura. É quase o registro de um flash: no primeiro verso a imagem é apresentada; no segundo, há o desenvolvimento, e no terceiro a conclusão; porém entre o segundo e o terceiro verso existe uma espécie de hiato abrupto, de ruptura na trajetória do pensamento, mas sem perda da conexão com o todo. Bashô e Issa são dois dos mais conhecidos mestres do haicai, que registra a captura de um movimento na hora exata em que ele acontece, uma percepção, um insight de fração de segundos. No Brasil, Eunice Arruda, Lena Jesus Ponte Alice Ruiz, Paulo Leminski, Guilherme de Almeida Edson Iura, Paulo Franchetti, Teruko Oda são mestres em atingir excelentes haicais. Eis um deles, de autoria de Lena Jesus Ponte, do livro Vidrilhos, disponibilizado gratuitamente na Internet: Nasceu vida: cactos! / Sepultura de meu pai./ Pássaros plantaram? À primeira vista parece que os cactos nada têm a ver com os pássaros e nem com o túmulo do pai. A narrativa se faz quase que por imagens que se movimentam como se um câmera mostrasse closes de detalhes para montar a narrativa. Assemelha-se ao enredo de um filme de Cinema Poético, construído através de subtextos. O Kigõ é a morte, o abandono, a perplexidade unindo ao inverno do ser concomitante ao renascer contínuo da vida. Tudo pode motivar você gerar ideias, fique atento: notícias de jornais, frases de livros, um diálogo, imagens da Internet, um quadro, uma escultura, uma música, um trecho de filme, seus sonhos, uma palavra, um gesto, uma escultura. Michelângelo teve uma fala poética ao esculpir seu famoso anjo,
Os provérbios são outra fonte
de observação criativa bastante comum ainda nos dias de hoje: eles fazem com
que reflitamos sobre as verdades absolutas que nos impuseram. Chico Buarque de
Holanda, em “Bom Conselho” é um excelente exemplo ilustrativo: “Ouça o meu
conselho/ Que lhe dou de graça / É inútil dormir que a dor não passa (...) Faça como eu digo / Faça como eu faço / Aja
duas vezes antes de pensar (...) Eu semeio o vento / Na minha cidade / Vou pra
rua e bebo a tempestade” (LP Chico e Caetano juntos e ao vivo, de 1972). No meu
livro Silêncio Relativo, publicado em plena ditadura militar (1977). Nesta época em
que aprendemos a falar de política de forma indireta, escrevi um poema chamado
Contradições (citando na epígrafe esta composição do Chico), em que finalizo
com os seguintes versos: (...) “Quem não deve é quem mais teme, / há quem cale
e não consinta, / e o diabo é exatamente / tão feio quanto se pinta”.
Você pode ter ideias
enquanto se diverte (lembra da definição de Einstein: criatividade é a
inteligência se divertindo”?) . Por exemplo: interaja neste episódio: “Advogado
de primeira”. É um vídeo muito divertido, porque o apresentador brinca de
encenar as falas do jogo, com uma voz diferente para cada personagem (embocadura
do ator, em linguagem teledramaturga), o que torna o vídeo mais engraçado ainda.
Procure mergulhar na construção da trama... mas não deixe de rir também um
pouquinho... https://www.youtube.com/watch?v=7KUn90s7HwU&t=1054s
Observar os detalhes e
contemplar sentimentos simultaneamente ao que você observou pode ser perfeitamente treinável com jogos
inteligentes. como as diversas
modalidades de Mahjong e jogos de raciocínio também: o Sand Sort Puzzle,
a Batalha Naval, o Solitaire (Paciência), o jogo das garrafas, o Caça Palavras
entre tantos outros; todos exercitam a
observação, além de serem
disponibilizados na Internet de forma gratuita). Sem falar dos games, que podem
gerar (e geram) interessantes roteiros, inclusive poéticos: Do meu livro
Desfamiliares, este EFEITO BORBOLETA: Será
que meus jogos de guerra / influem na paz da Terra? Em se tratando de jogos eletrônicos ou games,
importante é você não subestimar a leveza de encontrar ideias criativas através
da divertirão. Só não escolha um jogo que
deixe você mais tenso ou ansioso; e também tome cuidado para não ficar
obcecado pelo jogo ou usá-lo como fuga da realidade.
Nas referências desta
aula, destaco o último link. O texto Experiências é de uma poetisa
norte-americana, que fez parte da Escola de Nova York e do movimento
l=a=n=g=u=a=g=e=p=o=e=t=r=y. Tudo isto
vai fazer você “sair fora da caixinha”; No entanto, se realmente sua
criatividade vai nesta direção, não se esqueça de que é preciso coragem e
ousadia para ir contra a maioria, cuja poesia é feita apenas de lugares comuns.
Na próxima aula vamos
mergulhar nos gêneros e nos tipos de modalidades poéticas. Conhecendo-os
melhor, terenas mais facilidade em desenvolver o tom que queremos dar à nossa
poesia, que tipo de emoção desejamos despertar no nosso leitor ou seguidor.
APLICAÇÃO NA PRÁTICA
Comece a praticar a
criatividade na poesia: a observar o seu dia com a intenção (latente) de
escrever depois sobre algo que você notou, até sobre um objeto que estava fora
do lugar: uma coleira de luxo em um cachorro vira-lata, um caco no chão, uma
comida queimada... Se não quiser, apenas Anote e... reserve, sem necessidade de
fazer poema de imediato; é só treino de olhar mesmo.
Outro exercício: treine colocar em prática uma ou duas indicações de Bernadete
Mayer e descreva como foi a experiência, como você se sentiu
(contemple/descreva com detalhes as sensações que esta prática lhe
proporcionou: você se divertiu? Não? Por quê?).
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Sugestões de
leitura complementar:
Trovas: Vencedores dos Jogos Florais de Friburgo (de 1960 a 2922)
https://ubt-recife.blogspot.com/2022/06/vencedores-dos-jogos-florais-de-nova.html
Roland Barthes, A
lição. Tradução e posfácio de Leyla Perrone-Moisés. 11ª ed. São Paulo:
Cultrix, 2004.
Masuda Goga e Teruko Oda, Natureza - Berço do Haicai (Kigologia e Antologia.
São Paulo: Empresa Jornalística Diario Nippak, 1996. (Este livro é composto de três partes principais.
A primeira é dedicada ao estudo e catalogação dos kigos. A segunda é uma
antologia de poemas produzidos no Brasil. A terceira, um suplemento em que se
coletam textos vários sobre o haikai encadeado e sobre os princípios do haikai
praticado no Grêmio de Haicai Ipê).
Comentários à Kigologia: https://www.kakinet.com/caqui/natureza.htm
Masuda Goga, Teruko Oda e Eunice Arruda Haicai – a Poesia do Kigo. São Paulo:
Aliança Cultural Brasil Japão, 1995.
Lena Jesus
Ponte, Vidrilhos (haicais): http://lenajesusponte.com.br/vidrilhos/
Revista Grampo Canoa n° 2 (abril 2016) a criatividade
desta publicação, no formato impresso começa com o próprio tipo de
encadernação: mesmo com mais de sessenta páginas, ela é grampeada com grampo
canoa... Vale a pena ler a versão on line, em: https://docs.wixstatic.com/ugd/91ec05_a51beeb1396542d7beefbeadac49faeb.pdf
Bernadette Mayer. Experiências, tradução de Marília
Garcia, in Revista Grampo Canoa (PR):
https://lepaysnestpaslacarte.blogspot.com/2018/03/experiencias-bernadette-mayer.htm
O cérebro no mundo digital – os desafios da leitura na
nossa era, Maryanne Wolf. Trad, Rodolfo
Ilari e Mayumi Ilari, Editora Contexto,
SP, 2019.
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